Números da independência
Quanto é preciso por mês para viver sem depender de um salário
Fizemos a conta em 210 linhas, para os dois modos de vida. Dá 1.794 € por mês agora e 725 € com a quinta a produzir. E o que muda não é só a poupança.
725 € por mês. É o que precisamos para viver sem depender de um salário, com a quinta a produzir. Na vida que temos hoje, a mesma conta dá 1.794 €.
A folha de cálculo que está por trás destes dois números tem 210 linhas, uma por cada coisa que compramos ou pagamos, e projeta oitenta anos com inflação. Neste artigo mostro como foi construída, o que revelou e onde é que ela pode estar errada.
Como foi feita a conta
Cada linha tem quantidade, preço unitário, quantas pessoas consomem e quantas vezes por ano. A partir daí sai um custo anual de manutenção e um custo de primeira aquisição, que são coisas diferentes: um martelo compra-se uma vez, ovos compram-se todas as semanas.
Depois cada linha é marcada com o modo de vida a que se aplica. Há coisas que existem nos dois, como roupa ou seguros. Há coisas que só existem na vida normal, como a prestação da casa e o supermercado. E há coisas que só aparecem na vida sustentável, como a motosserra ou os filtros de água.
Sobre o total soma-se uma margem de segurança de 15 por cento, porque nenhuma conta sobrevive intacta ao primeiro ano.
Os dois números
| Vida normal | Vida sustentável | |
|---|---|---|
| Custo anual, com margem | 21.530 € | 8.700 € |
| Custo mensal | 1.794 € | 725 € |
| Versão sem extras | 16.174 € | 3.731 € |
A poupança é de 60 por cento. Mas não é essa a parte interessante.
O que muda não é só quanto, é onde
Quando se olha categoria a categoria, aparece uma coisa que não esperávamos.
| Categoria | Normal | Sustentável |
|---|---|---|
| Serviços | 7.737 € | 554 € |
| Alimentação | 3.893 € | 448 € |
| Automóvel | 3.130 € | 1.440 € |
| Animais | 950 € | 530 € |
| Casa | 1.086 € | 1.285 € |
| Quinta | 0 € | 1.139 € |
| Ferramentas | 108 € | 441 € |
Serviços divide por catorze. Alimentação divide por nove. Até aqui, o esperado.
O que não é esperado é a parte de baixo da tabela. A casa fica mais cara de manter. A quinta, que não existia, passa a custar 1.139 € por ano em manutenção. As ferramentas quadruplicam.
A autossuficiência não faz a despesa desaparecer. Troca despesa que não controlas por despesa que controlas.
Isto é o contrário da promessa que se costuma ouvir, e é a razão pela qual há gente que desiste no segundo ano. Quem entra à espera de deixar de gastar dinheiro leva um choque. Quem entra a saber que vai trocar a fatura da luz e do supermercado por manutenção, ferramentas e trabalho próprio, entra preparado.
O número que muda tudo
A conta interessante não é a do mês. É esta: quanto capital é preciso para nunca mais depender de um salário?
Investido a 8 por cento ao ano, o capital que sustenta cada modo de vida é:
- Vida normal: 958.137 €
- Vida sustentável: 386.890 €
Mudar o modo de vida corta o custo da independência financeira em 60 por cento. Dito de outra maneira, a mesma poupança mensal chega lá muitos anos mais cedo. Não é preciso ganhar mais, é preciso precisar de menos.
Onde é que esta conta pode estar errada
Três coisas, e digo-as antes que alguém as encontre.
A casa aparece paga. Na vida sustentável desaparece uma prestação de 4.800 € por ano. Isso assume que a casa está paga ou que não há crédito. Se houver, somem-se esses 400 € por mês ao número e ele passa de 725 € para mais de 1.100 €. A comparação continua a favorecer a vida sustentável, mas menos.
O retorno é otimista. A conta usa inflação de 3,5 por cento e bolsa a 8 por cento, o que dá 4,5 por cento de retorno real. É defensável em média histórica longa, mas ninguém vive em média: quem se reforma no ano errado apanha uma década má logo no princípio. A 5 por cento nominal, o capital necessário sobe quase 40 por cento.
Os preços são de 2026. Tudo isto assume que a relação entre preços se mantém. Se a energia subir mais depressa do que a comida, a vantagem da vida sustentável aumenta. Se for ao contrário, diminui.
O que ainda não sabemos
Esta é uma conta feita em folha de cálculo, não em terra. Ainda não sabemos quanto rende mesmo a nossa horta, quanto vai custar a nossa água, nem quantas horas por semana isto consome. As linhas de produção própria são estimativas, e estão marcadas como estimativas.
Vamos publicar a mesma tabela todos os anos, com os valores reais por cima dos previstos. É a única forma honesta de mostrar se o plano estava certo.
O passo seguinte, para quem lê
Faz a tua versão da linha mais pesada. No nosso caso são os serviços, com 7.737 € por ano. Vai às faturas dos últimos doze meses e soma o que pagaste de casa, luz, água, gás, telecomunicações e seguros.
Esse número sozinho já te diz mais sobre a tua distância à independência do que qualquer artigo. Inclusive este.
Estas são as nossas contas, com as suposições à vista. Não são aconselhamento financeiro nem de investimento. Ler os termos
Perguntas rápidas
- Quanto custa viver numa quinta em Portugal, por mês?
- Na nossa conta, 725 € por mês para duas pessoas, com a quinta a produzir e a casa paga. A mesma família, na vida urbana atual, gasta 1.794 € por mês. Os dois valores incluem uma margem de segurança de 15 por cento e são a preços de 2026.
- Quanto dinheiro é preciso para deixar de trabalhar?
- Investido a 8 por cento ao ano, o capital necessário é de 386.890 € para a vida sustentável e de 958.137 € para a vida urbana atual. Mudar de modo de vida corta o custo da independência financeira em cerca de 60 por cento.
- A autossuficiência faz mesmo poupar dinheiro?
- Faz, mas não da forma que se espera. Alimentação e serviços caem a pique, de 3.893 € para 448 € e de 7.737 € para 554 € por ano. Em troca, sobem a manutenção da quinta, as ferramentas e a manutenção da casa. A poupança líquida é de 60 por cento, e o que muda sobretudo é passar a controlar a despesa.
- Que despesas sobem quando se vai viver para uma quinta?
- A manutenção da quinta, que passa de zero a 1.139 € por ano, as ferramentas, que quadruplicam para 441 € por ano, e a manutenção da casa, que sobe de 1.086 € para 1.285 € por ano.