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Projeto Fio Terra

Números da independência

Quanto é preciso por mês para viver sem depender de um salário

Fizemos a conta em 210 linhas, para os dois modos de vida. Dá 1.794 € por mês agora e 725 € com a quinta a produzir. E o que muda não é só a poupança.

Por Daniel 9 min de leitura

Cartão com o valor de 725 euros por mês

725 € por mês. É o que precisamos para viver sem depender de um salário, com a quinta a produzir. Na vida que temos hoje, a mesma conta dá 1.794 €.

A folha de cálculo que está por trás destes dois números tem 210 linhas, uma por cada coisa que compramos ou pagamos, e projeta oitenta anos com inflação. Neste artigo mostro como foi construída, o que revelou e onde é que ela pode estar errada.

Como foi feita a conta

Cada linha tem quantidade, preço unitário, quantas pessoas consomem e quantas vezes por ano. A partir daí sai um custo anual de manutenção e um custo de primeira aquisição, que são coisas diferentes: um martelo compra-se uma vez, ovos compram-se todas as semanas.

Depois cada linha é marcada com o modo de vida a que se aplica. Há coisas que existem nos dois, como roupa ou seguros. Há coisas que só existem na vida normal, como a prestação da casa e o supermercado. E há coisas que só aparecem na vida sustentável, como a motosserra ou os filtros de água.

Sobre o total soma-se uma margem de segurança de 15 por cento, porque nenhuma conta sobrevive intacta ao primeiro ano.

Os dois números

Vida normalVida sustentável
Custo anual, com margem21.530 €8.700 €
Custo mensal1.794 €725 €
Versão sem extras16.174 €3.731 €

A poupança é de 60 por cento. Mas não é essa a parte interessante.

O que muda não é só quanto, é onde

Quando se olha categoria a categoria, aparece uma coisa que não esperávamos.

CategoriaNormalSustentável
Serviços7.737 €554 €
Alimentação3.893 €448 €
Automóvel3.130 €1.440 €
Animais950 €530 €
Casa1.086 €1.285 €
Quinta0 €1.139 €
Ferramentas108 €441 €

Serviços divide por catorze. Alimentação divide por nove. Até aqui, o esperado.

O que não é esperado é a parte de baixo da tabela. A casa fica mais cara de manter. A quinta, que não existia, passa a custar 1.139 € por ano em manutenção. As ferramentas quadruplicam.

A autossuficiência não faz a despesa desaparecer. Troca despesa que não controlas por despesa que controlas.

Isto é o contrário da promessa que se costuma ouvir, e é a razão pela qual há gente que desiste no segundo ano. Quem entra à espera de deixar de gastar dinheiro leva um choque. Quem entra a saber que vai trocar a fatura da luz e do supermercado por manutenção, ferramentas e trabalho próprio, entra preparado.

O número que muda tudo

A conta interessante não é a do mês. É esta: quanto capital é preciso para nunca mais depender de um salário?

Investido a 8 por cento ao ano, o capital que sustenta cada modo de vida é:

  • Vida normal: 958.137 €
  • Vida sustentável: 386.890 €

Mudar o modo de vida corta o custo da independência financeira em 60 por cento. Dito de outra maneira, a mesma poupança mensal chega lá muitos anos mais cedo. Não é preciso ganhar mais, é preciso precisar de menos.

Onde é que esta conta pode estar errada

Três coisas, e digo-as antes que alguém as encontre.

A casa aparece paga. Na vida sustentável desaparece uma prestação de 4.800 € por ano. Isso assume que a casa está paga ou que não há crédito. Se houver, somem-se esses 400 € por mês ao número e ele passa de 725 € para mais de 1.100 €. A comparação continua a favorecer a vida sustentável, mas menos.

O retorno é otimista. A conta usa inflação de 3,5 por cento e bolsa a 8 por cento, o que dá 4,5 por cento de retorno real. É defensável em média histórica longa, mas ninguém vive em média: quem se reforma no ano errado apanha uma década má logo no princípio. A 5 por cento nominal, o capital necessário sobe quase 40 por cento.

Os preços são de 2026. Tudo isto assume que a relação entre preços se mantém. Se a energia subir mais depressa do que a comida, a vantagem da vida sustentável aumenta. Se for ao contrário, diminui.

O que ainda não sabemos

Esta é uma conta feita em folha de cálculo, não em terra. Ainda não sabemos quanto rende mesmo a nossa horta, quanto vai custar a nossa água, nem quantas horas por semana isto consome. As linhas de produção própria são estimativas, e estão marcadas como estimativas.

Vamos publicar a mesma tabela todos os anos, com os valores reais por cima dos previstos. É a única forma honesta de mostrar se o plano estava certo.

O passo seguinte, para quem lê

Faz a tua versão da linha mais pesada. No nosso caso são os serviços, com 7.737 € por ano. Vai às faturas dos últimos doze meses e soma o que pagaste de casa, luz, água, gás, telecomunicações e seguros.

Esse número sozinho já te diz mais sobre a tua distância à independência do que qualquer artigo. Inclusive este.

Estas são as nossas contas, com as suposições à vista. Não são aconselhamento financeiro nem de investimento. Ler os termos

Perguntas rápidas

Quanto custa viver numa quinta em Portugal, por mês?
Na nossa conta, 725 € por mês para duas pessoas, com a quinta a produzir e a casa paga. A mesma família, na vida urbana atual, gasta 1.794 € por mês. Os dois valores incluem uma margem de segurança de 15 por cento e são a preços de 2026.
Quanto dinheiro é preciso para deixar de trabalhar?
Investido a 8 por cento ao ano, o capital necessário é de 386.890 € para a vida sustentável e de 958.137 € para a vida urbana atual. Mudar de modo de vida corta o custo da independência financeira em cerca de 60 por cento.
A autossuficiência faz mesmo poupar dinheiro?
Faz, mas não da forma que se espera. Alimentação e serviços caem a pique, de 3.893 € para 448 € e de 7.737 € para 554 € por ano. Em troca, sobem a manutenção da quinta, as ferramentas e a manutenção da casa. A poupança líquida é de 60 por cento, e o que muda sobretudo é passar a controlar a despesa.
Que despesas sobem quando se vai viver para uma quinta?
A manutenção da quinta, que passa de zero a 1.139 € por ano, as ferramentas, que quadruplicam para 441 € por ano, e a manutenção da casa, que sobe de 1.086 € para 1.285 € por ano.