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Projeto Fio Terra

Números da independência

Independência não se compra de uma vez: são seis sistemas

Água, comida, energia, abrigo, dinheiro e saber fazer. Falha um e os outros cinco não chegam. É este o mapa de tudo o que vamos publicar aqui.

Por Daniel e Jessica 7 min de leitura

Terreno rural ao amanhecer, com campos e colinas

Quase toda a gente que sonha com uma quinta começa pelo mesmo sítio: a horta. Depois descobre que a horta sozinha não resolve nada, porque em agosto a água acaba, em janeiro a casa está a nove graus e em março a conta da luz chegou na mesma.

A independência não é um objeto que se compra. É um conjunto de seis sistemas que se resolvem um de cada vez, e que se seguram uns aos outros. Falha um, e os outros cinco não chegam.

Este artigo é o mapa. Tudo o que vamos publicar aqui, durante os próximos anos, encaixa num destes seis.

1. Água

É o primeiro e é aquele por onde ninguém começa a pensar. Sem água no terreno, não há horta, não há animais e não há casa.

Há quatro origens possíveis, e é preciso saber qual está mesmo disponível antes de gostar de um terreno: rede pública, poço, furo ou mina. Cada uma tem um custo de ligação diferente, um caudal diferente e um processo de licenciamento diferente. Uma mina que dá água em março pode estar seca em agosto, e é em agosto que ela faz falta.

A pergunta que fazemos sempre antes de marcar uma visita é esta: de onde vem a água, quanto dá no pior mês do ano, e está registada?

2. Comida

Aqui o erro típico é plantar o que é bonito em vez do que se come. Uma família que come batata, cebola, couve e ovos todas as semanas ganha mais em dominar essas quatro coisas do que em ter vinte espécies diferentes a produzir mal.

A conta que interessa não é quantos quilos se produzem, é que percentagem do que se compra deixou de se comprar. E essa conta muda conforme a estação, o que obriga a pensar o ano inteiro de uma vez: o que se semeia em setembro é o que se come em janeiro.

3. Energia

A ordem correta é sempre a mesma, e quase toda a gente a faz ao contrário. Primeiro reduzir o consumo, depois produzir.

Uma casa que gasta 4.000 kWh por ano precisa de metade da instalação solar de uma que gasta 8.000 kWh, e reduzir consumo custa muito menos por kWh do que produzir. Trocar um frigorífico antigo, corrigir a iluminação e passar o que consome mais para as horas de sol pode cortar um terço da fatura antes de se gastar um euro em painéis.

Só depois disso é que faz sentido dimensionar a produção. E dimensiona-se sobre o consumo real, medido, não sobre o que vem no catálogo.

4. Abrigo

A casa é o maior consumidor de energia de qualquer quinta, e é o sistema que as pessoas tratam em último lugar porque é o mais caro e o menos visível.

Isolar antes de aquecer não é um slogan, é aritmética: o calor que se produz numa casa sem isolamento vai todo para a rua, e paga-se duas vezes, uma para o produzir e outra para o voltar a produzir no dia seguinte. Uma parede mal isolada anula uma salamandra nova.

5. Dinheiro

Independência não é deixar de precisar de dinheiro. É precisar de menos, e poder escolher de onde vem o que ainda se precisa.

Este é o sistema que quase ninguém publica, e é por isso que ele vai ser o pilar principal deste sítio. Quanto custa mesmo viver assim, quanto rende cada coisa, quanto tempo demora a pagar-se. Publicamos as nossas contas, com os erros e as suposições à vista.

6. Saber fazer

O que não sabes fazer, pagas. Todas as vezes, e para sempre.

Soldar, podar, enxertar, fazer uma instalação elétrica em condições, arranjar uma bomba, matar e amanhar um animal, conservar comida sem energia. Cada uma destas coisas que se aprende é uma fatura que deixa de existir todos os anos, e é a única parte do investimento que ninguém te pode tirar.

É também o sistema mais lento. Ferramentas compram-se num dia, conhecimento leva anos, e é por isso que se começa a aprender antes de ter terra.

Porque é que a ordem importa

Estes seis não se resolvem em paralelo, e há uma sequência que poupa dinheiro:

  1. Água, porque decide se o terreno serve ou não.
  2. Abrigo, porque sem casa habitável não se passa lá o inverno.
  3. Energia, depois de saber o que a casa gasta.
  4. Comida, que precisa de água e de tempo para o solo melhorar.
  5. Dinheiro, que se prepara desde o primeiro dia e não no fim.
  6. Saber fazer, que se vai ganhando em todos os outros.

Quem compra painéis antes de isolar a casa, ou planta antes de saber quanta água tem em agosto, paga a ordem errada com juros.

O que ainda não sabemos

Muita coisa. Não temos quinta, e há perguntas que só se respondem com terra debaixo dos pés: quanto tempo leva mesmo a melhorar um solo pobre, quanto rende uma horta nossa no nosso clima, quanto custa aquecer a nossa casa quando ela existir.

O que temos é o plano, as contas feitas com os preços de hoje e a disposição para publicar tudo à medida que acontece, incluindo o que corrermos mal.

O passo seguinte, para quem lê

Escolhe o sistema em que estás mais fraco e trata só desse durante um mês. Se não sabes de onde vem a água do sítio onde queres viver, é esse. Se sabes, mas nunca mediste quanto gastas de eletricidade por ano, pega nas faturas dos últimos doze meses e soma os kWh.

É o mesmo exercício que fizemos, e é por onde vai começar o artigo de sexta.

Estas são as nossas contas, com as suposições à vista. Não são aconselhamento financeiro nem de investimento. Ler os termos

Perguntas rápidas

Por onde se começa a construir uma vida autossuficiente?
Pela água, porque é ela que decide se um terreno serve. Depois o abrigo, a energia, a comida, o dinheiro e o saber fazer. Quem compra painéis antes de isolar a casa, ou planta antes de saber quanta água tem em agosto, paga a ordem errada com juros.
Quais são os sistemas de uma vida autossuficiente?
São seis: água, comida, energia, abrigo, dinheiro e saber fazer. Falha um e os outros cinco não chegam, porque se seguram uns aos outros.
Vale a pena instalar painéis solares numa quinta?
Vale, mas só depois de reduzir o consumo. Uma casa que gasta 4.000 kWh por ano precisa de metade da instalação de uma que gasta 8.000 kWh, e reduzir consumo custa muito menos por kWh do que produzir. A instalação dimensiona-se sobre o consumo real medido, não sobre o catálogo.